quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

MARMITA FILOSÓFICA: UM TEXTO DO FREI BETTO

PASSEIO SOCRÁTICO

Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares,
preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?


Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'.
Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'.

'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi-nho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.
Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.

E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald's...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:
'Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!"



MAIS UMA DO ENEKO

Eneko é um dos meus ídolos cartunistas.
Acho que não há nada mais lamentável
que um cartunista pouco inteligente, quer
dizer, sem criatividade, sem crítica,
sem sensibilidade, sem ironia.
Podem acreditar que existem.
Não é o caso do Eneko. Tem tudo isso, sobrando.
O considero um gênio do cartum.
Salut!

MARMITA APELATIVA

Zé Mei me manda de sumpaulo
mais essa contribuição inestimável
para a cultura nacional.
A piada é velha como a personagem,
que também é ótima. Como os
nossos marmiteiros desistiram, vou
botando aqui para algum incauto que não
a conheça. Salut!


NA MISSA DAS SEIS HORAS DO DOMINGO PASSADO, NA IGREJA DE S. PAULO APOSTOLO, em Copacabana, O PADRE EUSÉBIO perguntou AOS FIÉIS, AO FINAL DA Homilia:

"QUANTOS DE VOCÊS JÁ conseguiram PERDOAR SEUS INIMIGOS?"

A maioria levantou a mão. PARA Reforçar a VISÃO DO GRUPO, ELE VOLTOU A REPETIRA MESMA PERGUNTA E ENTÃO TODOS LEVANTARAM A MÃO,

MENOS UMA PEQUENA E FRÁGIL VELHINHA QUE ESTAVA NA SEGUNDA fileira, Apoiada NUMA ENFERMEIRA PARTICULAR.

"DONA MARIAZINHA? A SENHORA NÃO ESTÁ disposta a perdoar SEUS INIMIGOS OU SUAS INIMIGAS?"

"EU NÃO TENHO INIMIGOS! Ela respondeu, docemente.

"Senhora Mariazinha, ISTO É muito raro!" DISSE O SACERDOTE.

E perguntou: "QUANTOS ANOS TEM A SENHORA?

E ela respondeu: "98 ANOS!"

A TURMA PRESENTE NA IGREJA E SE levantou APLAUDIU A idosa, ENTUSIASTICAMENTE.

"DOCE SENHORA MARIAZINHA, SERÁ QUE PODERIA VIR CONTAR PARA TODOS NÓS COMO SE

VIVE 98 ANOS E NÃO SE TEM INIMIGOS? "

"COM PRAZER", disse ela.

AÍ AQUELA gracinha de VELHINHA LENTAMENTE SE DIRIGIU AO ALTAR, amparada PELA

SUA ACOMPANHANTE E OCUPOU O PÚLPITO.

VIROU-SE DE FRENTE PARA OS FIÉIS, ajustou O

MICROFONE COM SUAS MÃOZINHAS TRÊMULAS E ENTÃO DISSE EM TOM SOLENE, OLHANDO

PARA OS PRESENTES, TODOS visivelmente emocionados:

"PORQUE JÁ MORRERAM TODOS, AQUELES FILHOS DA PUTA! "