Zé Mei está morando em sumpaulo, desde o início de janeiro, depois de encarar um réveillon em Búzios pagando cinco real por um copo de água mineral. Veio com um papo de que não aguentava mais o Rio de Janeiro, depois que virou celebricidade mundial: os cariocas andam de nariz empinado, dizendo que o Flamengo é Império do Amor, o Fluminense é o time mais guerreiro, e acusa as torcidas de inversão de valores - o pó-de-arroz passou pra Gávea e os pitbuls pras Laranjeiras! Se mandou pra terra da garoa, dizendo que lá a temperatura é boa e saudável, não faz tanto calor, as pessoas são mais elegantes, tem melhores bares e restaurantes, vôos pra Disney à toda hora, resumindo: o Rio de Janeiro ficou uma merda! E foi embora no primeiro tam que passou por cima do Bracarense. Ontem me mandou uma mensagem que começa com a seguinte pérola:
- Como estão conseguindo sobreviver a esta áfrica ai? por aqui está absolutamente insuportável...


Desde que o samba é samba as chuvas de fevereiro e março arrasam o Rio de Janeiro, que também enfrenta o descaso das ôtoridade. Quando eu morava em Santa Tereza caiu um toró de sexta-feira que eu apenas ouvia o barulho e as faíscas dos raios e dos bondes, entre uma pinguinha e outra. Viola de 10 cordas na mão, deitado na rede e querendo pegar uma moda naquela tempestade. Como até o Obama já sabe, Santa Tereza fica a diversos metros acima do nível etílico e do mar, com relação ao resto da cidade. Comparável apenas ao Alto da Boa Vista e às comunidades das milhares de favelas que sobem as montanhas como uma legião de vagalumes em correição iluminada. Adormeci sem conseguir nada, pois canções que nascem nas tempestades podem ser perigosas, se atraídas pelas cordas de aço podem incendiar sua alma.
Dia seguinte, peguei o chevetinho e fui para o Centro encarar uma feira livre e ví o estrago da chuva na Lapa: uma montanha de lama desceu para as ruas e parecia que um malandro-bomba tinha explodido por ali. Uma clínica médica que foi construída no caminho de antiga nascente morro acima foi arrasada e diversos edifícios condenados no meu bairro. Em diversos subúrbios prédios caíram ou racharam, pois suas fundações cederam com a água acumulada. Subi a ladeira novamente, botei a viola no saco e fui para a Barra da Tijuca passar o weekend. A Barra ainda não era Miami, tinha muito areal, que bebia toda a água da chuva sem deixar virar essas piscinas de hoje. Minha família ficou ligando pra minha casa e ninguém atendia. Quando ligaram pra lá, surpresa! Eu estava vivo! No sábado fazia sol, apesar de algumas nuvens insistirem em passear por aqui. Agora, na virada do ano mesmo, teve uma dessas, que inundou a Baixada Fluminense. Eu estava na montanha, catando lenha seca pra acender o fogão.
Eu imagino o que os paulistas não estão passando: chuvas de verão não dão refresco, alagam tudo, mas o calor continua. E a cidade que nunca parou está a quase dois meses embaixo d'água. Choveu em todos os dias, tempestades magnéticas, enchentes, pessoas desaparecidas ou mortas. Não é fácil conviver tanto tempo com isso. Até o ex-presidente resolveu meter o pau na Dilma, coitadinha... Como não tem como comparar os governos, pegou a moça pra cristo. O prefeitinho manda baixar a malagueta no povão que foi protestar na frente da prefeitura. Que tal criar a CPI da pimenta? Isso é maneira de receber o eleitorado que não recebeu nenhuma ajuda do poder público municipal nem estadual? Inda se fosse na Bahia... E não é que deu certo? Ontem não choveu em sumpaulo! Mas é melhor eu ficar quieto no meu guarda-sol, antes que o FHC e suas viúvas do Posto Seis roguem suas pragas contra mim.
da cidade submersa, (viva Paulinho, viva Chico!)
criando esse maravilhoso metrô de superfície.
Não é uma gracinha, Seu Kassab?

