
No início de 2009, meu querido amigo Geo colocou-me nas mãos, mais uma vez, um livro que ele rotulou como "deve ser interessante", nas suas palavras, mas que gostaria que eu lesse e opinasse. Roubei o livro por um ano, e agora chegou a hora de exigir que ele, e todos os amigos leitores que nos aturam, leiam: o título já virou uma série de tv, parece, pois é demasiado saboroso para que o marketing das empresas não o aproveitassem: O MUNDO SEM NÓS, de Alan Weisman, Editora Planeta, 2007. Como trechos dele apareceram no Discover Magazine, pode ser que o Discovery Channel tenha filmado a série, não sei pois não vejo TV a cabo, nem aberta (verdade, só uso a tv para assistir a DVDs).
Foi o mais importante livro que li em 2009, ponto, e vai ser difícil algum passar a frente dele em 2010. Estou torcendo, pois vai ter que ser muito bom mesmo. A premissa é simples: como ficaria o nosso mundo se, do nada, de repente, todos os seres humanos desaparecessem da face da terra? Sim, abduzidos, reduzidos a ozônio, destruídos por uma estranha bactéria ou vírus, o motivo pode ser qualquer um: não importa, não é a discussão dele. A investigação é sobre o que acontece com a biosfera, nossos estragos, as grandes destruições, e também com as nossas obras, criações maravilhosas, construtos admiráveis: quanto eles durariam? E como se desintregrariam? Do canal do Panamá ao metrô de New York, dos portos do mundo às fazendas de gado, as fábricas, os oleodutos e siderúrgicas, as pinturas e esculturas, os depósitos de lixo nuclear refrigerados artificialmente, os museus e as estradas, as cidades, prédios, navios, tudo enfim que representa a nossa orgulhosa civilização, o que restaria depois de, digamos, cem anos? E depois de quinhentos anos?
Embora pareça articial demais a premissa, suas consequencias práticas são importantes: em sete dias, por exemplo, o suprimento emergencial de combustível para geradores diesel que circulam a água nos reatores nucleares iria acabar, com as consequencias que Chernobyl não nos permite esquecer. Em um ano, um bilhão de pássaros deixariam de ser abatidos quando as luzes de sinalização das torres de comunicação apagassem e não mais interferissem no seu sistema de navegação. Em 100 anos, populações inteiras de gambás, doninhas, guaxinins, raposas e vários pássaros diminuiriam devido à competição com mais um letal legado humano: os imensamente bem-sucedidos, ferozes e predadores gatos domésticos. Em 300 anos, a maioria das pontes de concreto, sem manutenção, já terão ruído, assim como a maioria das barragens. Cidades como Porto Alegre e Houston, localizadas na foz de rios, terão sido levadas embora. Em alguns milhares de anos, as cidades terão cedido espaço às geleiras. Em 35 mil anos, o chumbo depositado durante a "era das chaminés" finalmente terá sido removido do solo (o cádmio levará 75 mil anos). Depois de 100 mil anos, o gás carbônico terá voltado a níveis pré-humanos. Em algumas centenas de milhares de anos, bactérias tornarão os plásticos realmente biodegradáveis e se alimentarão desse lixo espalhado por todos os continentes e oceanos. Em 10 milhões de anos, apenas esculturas de bronze e estruturas de pedras primitivas seriam reconhecíveis no planeta: todas as coisas modernas construídas por nós terão desaparecido. Em 3 bilhões de anos, formas de vida ainda existiriam na Terra, irreconhecíveis para nós.E o planeta vai queimar totalmente quando o Sol agonizante se expandir e englobar os corpos que o circundam.
E por todo o universo, seja lá o que isso signifique, a única coisa que sobrará serão os sinais emitidos de rádio e tv, dispersos pelo espaço, carregando tanto Tom Jobim e Karajan quando o Faustão de domingo, por toda a eternidade.

2 comentários:
Uau! Tema apocalíptico e instigante...
Até que seria uma boa!!
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