quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

DESCAIPIRIZADA

O anúncio antecipou o Carnaval:a aguardente de cana brasileira,vulgo cachaça,quer libertar-se da carga da refrescante caipirinha e escorrer-nos pelas goelas também nas estações frias.Isto dito de modo empresarial é:"O segmento cachaça está a adaptar as suas estratégias de exportação à sazonalidade e ao estigma do consumo da bebida no Verão(para) entrar nos mercados de Inverno".Como?"Com as novas receitas que levam ingredientes como o chocolate,especiarias ou café".Isto é conversa de vendedor,evidentemente.Com segmentos,públicos-alvo e etcetra.
 Mas a história da bebida propriamente dita é bem mais interessante e ancestral.A velha marchinha carnavalesca diz:
Você pensa que cachaça é água/cachaça não é água não/cachaça vem do alambique/e água vem do ribeirão;mas se o líquido vem do alambique,já o termo "cachaça" possui origem mais nebulosa.O excelente Dicionário Etimológico de José Pedro Machado fá-lo derivar de "cacho",exemplificando tal raíz com um trecho do séc.XIII,mas a história oficial da bebida leva-nos até 1530,quando os engenhos de açúcar começam a ser implantados no Brasil.Os colonizadores bebiam,claro,bagaceira portuguesa e vinho do Porto.Até que,num engenho da capitania de São Vicente(doada pelo Rei D.João III a Martim Affonso de Sousa,em 1532),é descoberto um vinho derivado da cana a que primeiro chamam garapa azeda e que passa depois a ser servido aos escravos,sob o nome de cagaça.
A destilação da cagaça leva,certo dia à descoberta da cachaça.Que nalguns engenhos passa a ser produzida com regularidade,a par do açúcar.O nome? Mais uma vez,a incerteza:pode ter vindo do nome ibérico cachaza,vinho inferior então bebido em Portugal e Espanha,ou do facto de tal aguardente servir para amolecer a carne dos porcos selvagens(cachaço ou cachaça,a fêmea) do Nordeste brasileiro.
Seja como for,o povoamento crescente de Minas Gerais,devido ao ouro,pediu "ajuda" à cachaça,que ajudava a suportar os ambientes frios das montanhas onde cresciam as casas.Mas a corte não achou graça.A bagaceira portuguesa perdia terreno e,a pretexto de que a cachaça atrapalhava as minas,proibiram-na.Várias vezes,sem êxito.Então usaram outro ardil:taxaram-na.Aqui,sim,com proveito.Os impostos derivados da cachaça brasileira ajudaram,e muito,à reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755.
Depois a cachaça embarcou na história:torna-se símbolo da resistência,ferve de euforia com o Ipiranga e sobe aos palácios,para perder fama e uso com o advento da república e a abolição da escravatura.Até que,com os alvores do samba e o resgatar do espírito brasileiro nos anos 20,ela se reinstala em definitivo.A lista de marcas que produzem cachaça no Brasil é impressionante:180.E com os nomes mais inacreditáveis:Olho de Boi,Doministro,Donzela,Gato,Inconfidência,Nabunda,Quizumba,Rapariga(que no Brasil é nome mal afamado,já se sabe) ou Segredo do Patriarca.Além daquelas que toda a gente conhece das lojas. Uma coisa é certa: agora,quer descaipirizar-se.
Em guarda,públicos-alvo!
Artigo do jornalista Nuno Pacheco
Publicado no Público(P2) de 15 de Fevereiro 

1 comentários:

aminhapele disse...

Saltou uma linha.
"Nabunda,Rapariga..."
As minhas desculpas gráficas.