segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Memória


Nossas Marias e Clarices continuam a chorar. Nossa pátria mãe gentil, também. Mas ela não está mais aqui para cantar nossas dores e amores, gargalhar, brilhar, chorar, esbravejar e arder como pimenta da boa. Elis morreu há exatos 28 anos, aos 36. Hoje teria 64 e às vezes me pego imaginando como seria, o que cantaria, a quem amaria, que compositor incentivaria, que causas defenderia... Não dá pra saber, já que Elis surpreendia sempre, era como um mar revolto que prenuncia a tempestade. Tal qual o mar, passada a tormenta, era só calmaria - generosa no sorriso, na doçura, na solidariedade. E, sem pudores, extravasava emoção. Ao cantar, ao falar, ao viver. Com ela nada era quase, mais ou menos ou pode ser. Era doce e azeda, gélida e calorosa, bonita e feia, tudo ao mesmo tempo. Só uma coisa não mudava: o talento com que transformava em obra prima qualquer música que cantasse. Tenho saudade e, quando isso acontece, ouço seus discos, assisto a DVDs, e entendo, enfim, que não importa a mínima como ela estaria hoje.


Em 19 de janeiro de 1982, vi incrédula, por uma telinha em preto e branco de 12 polegadas, a notícia da morte da Elis. E meio trêmula, me senti mais pobre, mais sozinha, meio vazia. Oito anos depois, perdi meu pai, que nasceu num 19 de janeiro. Desde então, a data carrega com ela um sem jeito meio amargo, uma memória que mistura amor, ternura, saudade e dor. Mas há que sacudir a tristeza. E para esperar o dia 20, que sempre chega, boto na vitrolinha um disco da Elis e deixo a poderosa voz ecoar pela sala. “Eu, hein, Rosa...”. 19 de janeiro, agora, só em 2011.

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