sábado, 28 de novembro de 2009

MARMITA DA FUMAÇA

Desde que começou pra valer a campanha contra o cigarro, até em varandas abertas, como as dos botequins, eu estava com vontade de escrever a respeito, mas preferi saber das reações, os comentários, as queixas dos injustiçados, as razões dos protegidos... Tem de tudo nessa história. A única notícia digna de nota me pareceu a declaração da indústria (ou de seus representantes) fumageira (que palavra horrorosa!) dando conhecimento de que o consumo de cigarros não caiu. Parece a inflação de tempos atrás: só aumentava. Segundo a declaração, ninguém passou a fumar menos ou mais com essa lei. Na minha posição de ex-fumante, poderia estar apoiando neuroticamente a história, tornando-me fiscal do Ministério da Saúde e denunciando deus e todo mundo. Acontece que a proibição me incomoda mais do que a fumaça alheia. Fumei durante muitos anos e parei diversas vezes. Atualmente estou batendo meu recorde, quatro anos e meio sem fumar o industrial. Quando bebo a saudade aumenta, como se o cigarro fosse uma paixão antiga. Mas como nas paixões perdidas, consegui contornar o sofrimento com uma cigarrilha sem tragar. Assim, a quantidade e a qualidade da nicotina que entra é muito pouca e nem de longe se compara aos quase três maços de malborão que consumia diariamente. É como namorar sem transar... Existe isso? Sei lá, muita calma nessas horas. Parei de fumar sem etiquetas, comprimidos, balas, terapias... Acho que nada disso funciona se a vontade de fumar é maior. É preciso ter um certo ódio ao cigarro, pelo menos no início, nos primeiros dias. Depois, relaxa e não enche o saco dos outros. Bebo com fumantes ou antitabagistas, fumo com alcoólatras ou inimigos da manguaça. Não dá pra beber sem engolir, mas fumo minha cigarrilha sem tragar. Umas têm sabores, outras têm aromas cubanos, enfim, cada uma no seu quadrado de lata. Com o passar dos anos nada mais é obrigatório: nem a cigarrilha nem o chope. Ontem, por exemplo, tomei alguns no Chico & Alaíde, onde experimentei o camarão empanado e o caldinho de frutos do mar. Ambos excelentes. Como estava sem minha latinha de cigarrilhas, nem senti falta. O que complicou foi a saideira escocesa... Mas concordo com algumas opiniões que li na reportagem sobre o filme É Proibido Fumar: os fumantes estão sendo mais criminalizados do que os viciados em qualquer outra droga. A Lei funciona contra o lado mais fraco, os donos dos bares, com pena pecuniária. Os manuéis foram transformados em agentes da Lei, uma espécie de guarda municipal do orçamento ministerial. Por que nosso alcaide em exercício não coloca os seus funcionários da Guarda Municipal para fiscalizar os bares e restaurantes? Eles não fazem nada mesmo! Ficam em grupos nas esquinas, batendo papo ou falando nos celulares. Se me mandarem comentários negando isso eu vou passar a fotografá-los para publicar aqui na Marmita. Basta uma viagem do Leblon pro centro da cidade para observar da janela do ônibus aqueles grupinhos reunidos na sombra dos canteiros das avenidas litorâneas. A impressão que me dá é que qualquer um pode assaltar um transeunte ao lado deles, esquartejar a vítima e fazer um churrasco das carnes mais nobres que eles nem vão se mexer. Talvez até participem do churrasco. Enquanto isso, os trabalhadores de bares e restaurantes têm que fazer o serviço do Estado, na perseguição aos fumantes, perdendo movimento e clientes.
Um dia desses, após uma tarde desgastante, sentei numa mesa na calçada, livre de toldos ou quaisquer barreiras para a circulação de ar, para dar uma relaxada, comer uns croquetes e beber uma gelada - devia estar fazendo uns 40 graus às seis e meia da tarde. Acendi minha mini-cigarrilha e reparei que os garçons começaram a montar uma mesa no meio fio. Depois vieram convidar-me a sentar na tal mesa, pois era "proibido fumar debaixo da marquise". Antes que me mandassem sentar no meio da rua - faltavam poucos centímetros - pedi a conta e fui relaxar em outra freguesia. Passei por dois botecos logo adiante - tudo normal. Com a vantagem de servirem acessórios de feijoada pro tiragosto. E posso garantir que daqui a pouco vão começar a proibir as comidas culturais, os traçados, os sonhos de padaria... Na doce ilusão de formar um povo saudável como a juventude hitlerista, pra não ter que gastar verba pública com bobagens. O crak grassando nas esquinas e o pessoal preocupado com os fumantes. Que tal proibir a fabricação e consumo de cigarro? E dos automóveis? E das bebidas? e dos senadores? E a fabricação de fábricas? Tudo isso vicia. Polui. Causa doenças. E mata. Voltemos todos para as florestas, joguemos fora nossas roupas de grife, nossos relógios, nossos automóveis. Vamos voltar ao homem básico! Casual! Vamos viver sem políticos, advogados, arquitetos e manicures. Médicos podem ficar: quem vai dirigir a ambulância?

Imagem tragada do blog:
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