terça-feira, 7 de julho de 2009

Agenda cultural: A FILHA DA CHACRETE

Com a correria da ida a #FLIP2009, acabei não divulgando aqui no Marmita a reestréia da nossa querida amiga Camila Rhodi com sua peça "A Filha da Chacrete" em cartaz todas as quartas de julho no Teatro Gláucio Gill. Mas ainda está em tempo,"imagina!..." E vale a pena conferir. O texto autobiográfico é bem-humorado, inteligente e corajoso. A Camila interpreta ela mesma em variadas idades, numa belíssima confissão em cena de emocionar... rir, chorar e sair pensando. Mais informações no site.

A Filha da Chacrete. Todas as quartas de julho, 20h. Teatro Gláucio Gill. Ingressos: R$ 10,00

MÚSICA NA PASSARELA - A BELA DO DIA

video

Tristeza e Solidão - Kolosko-Dimow Duo

Este é um dos afro-sambas mais bonitos da dupla Badem Powell/Vinícius de Moraes. Quase que meio desconhecido, como toda a música boa produzida aqui no Cunhadão. Bela versão.


FLIP 2009 - UMA IMAGEM VALE MAIS QUE...

A Lumix está por aqui, cheia de fotos de Paraty. Não fotografei chicobuarque e seus zóios de ardósia, não fotografei taleses@cia, casais des-separados, globais e que tais. Não, acho que FLIP não é praia de ex-bbb, ex-novela-das-sete, ex-rainhas-de-bateria. Nem o sabadão tava lá, nem o domingão. Estava o Ancelmo Goes, colunista que publicou essa foto - espero que dê para ler os créditos (foto de Fernanda Araujo). Ela é a imagem da FLIP deste ano: a exploração do turista. Já fui a Paraty várias vezes, sempre hospedado em pousadas, sempre comendo nos restaurantes locais, sempre navegando por suas ruas como quem está o tempo todo atravessando um rio de serra, perto das nascentes, pelo caminho das pedras. (Quando for ao Vale das Flores vou estar nos cascos!) Sempre passeando de traineiras. Sei o que é isso. Dessa vez, a viagem não foi tão agradável: vinte e cinco mil pessoas andando no Centro Histórico. Comendo de pipoca a caviar. Falando tupy-guarany ou chinês. E o cidadão de Paraty ganhando na loteria. A pousada Azul, por exemplo, cobra "normalmente" uma diária de R$80,00. O que ela chamou de "Pacote Flip", como todas - 4 diárias -, custou R$1.350,00 mais as "taxas". Sem recibo, of course. Em certo momento, recorri à Casa de Cultura para uma pausa após uma quase entorse no tornozelo, procurei o banheiro e... fui informado de que estava fechado! "Está faltando água na cidade". A Casa da Cultura não poderia cobrar, pega mal... No bar da esquina não estava faltando água nem coisa nenhuma, só honestidade: apresentaram uma conta com 21 chopes. Requisitamos as comandas e... Só comprovaram 9. Mas antes tentaram de tudo para nos convencer da exatidão de sua cobrança, que também tinha 3 cocas e 1 água mineral extra... Uma beleza! Ganhar dinheiro assim eu também quero! Ou melhor, não quero não.
Durante o ano inteiro, os artesãos constituem uma das atrações turísticas mais peculiares da cidade, com seus berenguendens, penduricalhos, quadros, pequenos instrumentos musicais de origem indígena, bijuterias e que tais. Foram expulsos do centro histórico da cidade pela prefeitura, que mandou a polícia militar apreender as mercadorias de quem fosse encontrado vendendo pelas ruas. Quem quisesse comprar tinha que entrar nas lojas e ser assaltado!
Mas o que mais me deixou pasmo foi a proibição da venda de livros independentes por seus autores em bancas improvisadas ou quaisquer outros artifícios que os expusessem ao distinto público. Geralmente são poetas os que vendem sua obra dessa forma. Só podiam vender "circulando" com os livros na mão, abordando os transeuntes, como pedintes. Poetas são geralmente os mais perseguidos pelo poder constituído, portanto, também tinham suas obras confiscadas pelos - vamos falar sério? SAMANGOS da prefeitura de Paraty, em conformidade com a direção da FLIP, que nada fez para tentar contornar a situação e deixar que a poesia circulasse livremente durante o evento. Omissão, para mim, é cumplicidade. Não vi nenhuma declaração de seus organizadores a respeito. É claro, não estavam ali produzindo a festa para qualquer penetra se aproveitar de seu público para vender seus poemas de beira de calçada. Estavam trazendo diversos autores do mundo inteiro para quê? O povão comprar livro de um real? Essa é uma característica do esquema em que se transformou o negócio da cultura aqui no Cunhadão, envolvendo governo, iniciativa privada e os criadores. O evento nasce no povo, é regulamentado pelo governo, que se torna dono dele, com seu poder de licenciar suas manifestações, e depois é repassado à iniciativa privada, que sob falso patrocínio - pois recebe de volta o que investiu com a prática da renúncia fiscal - torna-se o grande “mecenas”. Quem paga é sempre o povo, que criou e não pode mais participar de sua criação. O caso mais escandaloso desse processo são as escolas de samba do Rio de Janeiro. Se não era o caso da FLIP, está se tornando, quando proibe o próprio sentido de sua existência: a divulgação da cultura literária. Ou não?
Outros detalhes me chamaram a atenção naquele evento dito cultural: a quantidade de pessoas com crachá da FLIP perambulando pelo local. Muito mais do que trabalhando, que já era bastante gente. Eram crachás grandes, para não deixar dúvidas, pendurados no peito, escondendo os colares comprados nos camelódromos fora do perímetro charmoso da cidade. Não sei o que faziam, não consegui saber quantas atividades eram aquelas. A maioria formada por jovens de boa cepa: sumpaulo e adjacências, que também era a maioria do público flipense. Tinha muito carioca também, com seu amadorismo natural, correndo atrás do Chico Buarque, em vão.

Uma coisa boa, peloamordedeus! Sim, tudo isso foi compensado pela grande algazarra das crianças, que a cada ano ganham mais espaço na FLIP. Era muita criança, uma verdadeira Paraty-mirim, nome de praia alí pertim. Enfim, uma coisa muito bonita de se ver. Quanto à lumix, vamos ver que surpresa ainda me guarda.

FLIP 2009 #3



Uma vez por ano as bucólicas ruas de pé-de-moleque, o cenário pré-colonial de portas e janelas coloridas e o cheiro de Dama-da-Noite de Paraty recebem calorosamente a Festa Literária de Parati [com I pelo que eu li, apesar das contradições em cartazes com Y, diferente do  nome da cidade, o nome da festa é um trocadilho para ti]. É uma verdadeira celebração à palavra escrita. Como definiu nossa vizinha de pousada a @samegui, é um oásis de leitores. A cidade se enfeita e se prepara pra receber uma multidão de gente ávida por livros [ou ao menos ávida por parecer ávida...]. E é uma festa linda! Um clima bom, astral bom e muita coisa interessante acontecendo ao mesmo tempo e sempre. Uma sensação de comungar com todo tipo de novidade cultural, todo tipo de gente interessada em arte, cultura e boêmia... 

Críticas à parte: em relação a falhas na organização; à truculência dos fiscais do evento que estavam apreendendo livros dos autores independentes que tentavam pegar uma carona no clima literário e na demanda do público por novidades, e tiveram seu trabalho confiscado [http://www.logorreia.com.br/?p=113]; aos comerciantes inescrupulosos que resolvem se aproveitar do burburinho da festa e da euforia do pessoal para superfaturar contas e deixar a desejar nos serviços. 

É que a festa talvez tenha crescido um pouco demais pro tamanho e estrutura da cidade. Esse ano foram 25 mil pessoas. Aos próprios organizadores assusta esse gigantismo do evento. Talvez a cidade não comporte um inchamento tão grande. O problema é que mesmo assim, quem vai jura que volta no ano seguinte… 

Porque é mesmo muito bom ouvir os debates, descobrir novos autores, redescobrir outros… 

Elejo aqui alguns pontos altos [que vi ou que ouvi a respeito]: 

• A homenagem a Manoel Bandeira [obs pos-postagem: Francis e Olivia Hime apresentaram um show homenagem belíssimo, apesar do piano de brinquedo]

• A presença onipresente [com ou sem fiscais] dos artistas anônimos, tocando, interpretando, posando e divertindo muito: Jack Sparrow, Merlin, Cristo Redentor, Don Quixote, músicos, desenhistas, pintores, artesãos e demais autores marginais… [mesmo que a “organização” se incomode, eles fazem a festa!] 

• A mesa do Chico Buarque e do Milton Hatoum  [não assisti muitas mesas pra julgar, li que a do Lobo Antunes foi imperdível, também ouvi muitos elogios a mesa do Gay Talese e fiquei curiosa para ter visto a mesa do Richard Dawkins. Assisti a mesa do Mario Bellatin e não achei nada demais, apesar dele ter uma prótese em forma de falo na mão direita… A do Chico Buarque e do Milton Hatoum era a mais esperada, a mais cheia e fez jus a fama. Eles esbanjaram simpatia, descontração e humor…] 

• A Flipinha - agradou crianças e adultos, com destaque pra oficina de cordel.

• A FlipZona - apesar de não ter visto a programação, a iniciativa é ótima e o espaço estava incrível.

• Off Flip – Com eventos paralelos muito interessantes, acaba também compensando um pouco a celebrização às figuras famosas e promove debates, saraus e concursos. Queria também ter participado mais, é bem acessível. 

• Twitter, twitters e tweitts – um fenômeno desse ano era a quantidade de gente que twittava o tempo todo. Confesso que até eu. Exageros à parte [tinha gente parecendo turista japonês em museu] foi divertido, aposto como foi uma cobertura bastante inusitada, com comentários pessoais em tempo real,  de forma espontânea. 

Pérolas da # Flip2009 [twittadas ou entreouvidas por aí] 

“Eu quero um Red Label. Diz aqui que é para 8 anos, eu já tenho 11 então eu posso” [João -11 anos] 

“O que é Rigatone? É um Ring tone italiano?” [João – 11 anos] 

“Maior ressaca. Acho que me excedi nos livros ontem” [Hélio De La Peña - Twitter] 

 “Escrever é corrigir e reescrever”[Lobo Antunes] 

"Para não serdes os martirizados e escravos do tempo/ embriagai-vos sem tréguas/ de vinho, de poesia ou de virtudes/ como achardes melhor". [Bodelaire – citado por Eduardo Tornagui]

 “Para mim a #Flip2009 evidenciou média cultura e alto grau de euísmo literário”[ YO_HOY – Twitter] 

“Numa orgia é possível ficar entediado” [Gay Talese] 

“ As pessoas comuns podem ser extraordinárias se você as conhece bem” [Gay Talese] 

“Eu escrevo para me livrar de mim mesma” [Catherine Millet] 

“Covardia. Chico começou lendo trecho de Leite Derramado, com seguinte diálogo: fode eu... enraba eu, negão!” [Marcelo Tas - Twitter] 

“A imaginacão já não existe mais, agora tudo está no Google” [Chico Buarque] 

Escrever é uma chatice, eu gosto de ler.”[Chico Buarque] 

Chico, prepare a munheca, plateia se levanta antes de acabar e corre pra fila de autografos” [Marcelo Tas] 


Efeito Flip: A gente sempre acaba comprando mais livros do que vai conseguir ler…

 

Ano que vem tem mais!  #FLIP2010

MÚSICA NA PASSARELA - A BELA DO DIA

video
Joe Cocker "The Letter" in live 1970 (MAD DOGS & ENGLISHMEN)

O que me fez postar esse petardo de 39 anos de idade? Eu já era vivo e com idade suficiente para apreciar o maluco inglês cantando. Tá por aí cantando até hoje, sem a maluquice de antes e já meio rodado. Joe Cocker fez mais do que cantar: trouxe uma nova estética ao palco, antes que o sistema conseguisse glamorizar até os mendigos, como faz hoje com o pessoal falido de Wall Street. Cocker mostrou que não é preciso ter todos os dentes para subir no palco. Nem dançar maravilhosamente bem. Nem vestir armanis. Nem comer morcegos. Andava mal ajambrado, como dizia a Virinha quando eu saía de casa com minhas camisetas rasgadas na costura e as calças desbotadas - não eram customizadas, eram muito usadas mesmo. No início dos anos 70 abriu uma loja de jeans usados, importados dos esteites, alguns com buracos de bala e faca - talvez feitos depois de velhos, que nem shows de roqueiros hoje em dia, pra enganar os nativos do sub-Equador. Eu achava babaquice comprar essas coisas, apresar de ter ido até lá para ajudar amigas a escolher - eram mais caras que uma calça Lee original que a gente comprava nos fundos de importadoras do Saara. E voltava pro Leblon com o tesouro debaixo do sovaco. Grandes anos aqueles, apesar de você. Tem mais coisa nesse vídeo que eu quero ressaltar, dois músicos: Bobby Keys, o saxofonista que tocou com todos os músicos de rock and roll do planeta. Tive o prazer de ver esse gorducho em ação em dois shows dos Stones no Rio. E o genial Leon Russell, multinstrumentista, maestro, compositor da pesada. O arranjador e maestro da banda. Bom demais!


FlIP 2009 #2

Em sintonia com a frase do Chico, está um trecho do livro Verdade Tropical (1997) de Caetano Veloso.

"Mas o fato é que eu já considerava João Gilberto um artista maior, em todos os sentidos. Um poeta, pelas rimas de ritmo e de frase musical que ele entretecia com os sons e os sentidos das palavras cantadas. Um criador revolucionário com Glauber - sem os defeitos: sem mão pesada ou inábil. À altura de João Cabral e de João Guimarães Rosa, mas atuando para uma larga audiência, e influenciando imediatamente a arte e a vida diária dos brasileiros."