
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Chutando cachorro morto

Discordo em grande parte da abordagem do artigo reproduzido no post em questão. Acho que o sr. Beni Borja, autor do "Diário Musical", em seu afã de levantar bandeiras anti-indústria-fonográfica-marketeira se equivoca em vários argumentos e mistura conceitos completamente incompatíveis.
O autor começa confrontando a relação antagônica entre ARTE x PRODUTO. E eu já começo a discordar a partir daí. Antes de polemizar, é importante analisar os significados e no âmago da questão estes dois conceitos não se opoem. Pelo contrário, produto quer dizer, em sua essência, o fruto de qualquer atividade ou produção, e desculpe-me sr. Borja, tal conceito se aplica SIM à arte! Seja uma sinfonia de Beethoven, um quadro de Portinari, uma peça de Shakespeare, um show da Madonna, um musical da Broadway, um filme de comédia, o samba da Portela ou o disco novo do Escambo, todos estes são produtos artísticos culturais, ponto. Não me venha com churumelas ou purismos. Quanto a serem eruditos ou populares, perenes ou fugazes, sofisticados ou prosaicos, é uma questão de juízo de valor que não vem agora ao caso. Só não dá para radicalizar dividindo em balaios produtos x artes.
A indústria fonográfica mudou sim, e muito a maneira de se comercializar e de se relacionar com a música, como toda descoberta tecnológica muda seus mercados e suas relações e graças à Deus vai continuar mudando. Como a internet já transformou em 10 anos todo o status quo do último século. Nada voltou a ser como antes, as coisas não retrocedem, evoluem. E numa velocidade cada vez mais alucinante.
Por mais equívocos que a indústria fonográfica tenha cometido, em seu tempo ela cumpriu o seu papel. Com boas ou más intenções, com espírito de porco, com marketing, com jabá, com abusos de poder, mas também com talento, criatividade, paixão e empenho de muita gente boa que pôs o pé na profissão, ou no business por gostar de ouvir música! [Recomendo o livro do André Midani "Música, ídolos e poder"] E, novamente sem juízo de valor, com as ferramentas da época, foi responsável por registrar, gravar, veicular, divulgar e distribuir música! Se paralelamente criou vícios de mercado, mutretas e produtos vazios de conteúdo e qualidade em nome do seu super faturamento e para manter sua super estrutura, esse foi o monstro que engoliu ela mesma. Não olhar ao redor foi o seu grande tiro no pé.
Voltando ao artigo, a parte que considero o ápice da argumentação furada vem quando o autor compara o faturamento de um certo artista plástico inglês com o faturamento da Madonna e atribui o disparate entre tais valores [!] à equivocada atuação do marketing da indústria fonográfica.
Bom... são universos tão completamente distintos que fica até difícil de contra-argumentar. Então vou apenas levantar umas questões: quantos artistas plásticos no mundo faturam tanto assim? Quantos e quanto outros artistas não vivem à mingua, lutando por um lugar ao sol, por uma pequena galeria para expor? Qual a máfia que movimenta este mercado? Imagino a quantidade de agentes, assessores de imprensa, marketeiros e curadorres de estilo não precisam estar envolvidos na "construção"de tamanho sucesso... Será mesmo que a diferença se dá por diferentes abordagens de marketing? Ou será que o mercado para o produto de artes plásticas é muitíssimo mais restrito, com um ínfimo nicho para mega faturamentos e nichos quase inexistentes para pequenos e médios artistas? Será que o mercado para produtos musicais não tem uma cauda muito mais longa sendo muito mais segmentado e permitindo explorar uma quantidade muito maior de pequenos e médios valiosos nichos?
Em suma, a questão é: estamos diante de uma drástica transformação decorrente das mudanças de paradigmas decorrentes da internet, da democratização dos meios de comunicação, do compartilhamento de arquivos, etc. Não só no mercado da música, mas também no da arte, da cultura e principalmente das comunicações. É um momento de transição e instabilidade. Todo o velho modelo está em xeque, os critérios de direitos autorais, de propriedade intelectual, e de distribuição em velhas mídias soam obsoletos e anacrônicos. É hora de estar aberto para as novas oportunidades advindas da super segmentação, é extremamente válido refletir sobre quais são os caminhos para tornar os novos canais eficientes, criativos e principalmente rentáveis. Afinal um business precisa ser sustentável para quem quer sobreviver dele.
Não tem mais sentido ficar chutando cachorro morto. Que há algo de antiquado nas velhas formas de marketing e divulgação de massa do produto musical, é certo. Mas a nova fórmula de sucesso também ainda não foi descoberta. E certamente não é do alto de um pedestal com um rótulo de artista intocável distante dos mortais, avesso às comunicações de massa que se vai chegar a algum lugar! O movimento é de democratização, não o contrário. Todos os jovens e talentosos músicos que eu conheço almejam serem conhecidos e ouvidos pelo maior número de pessoas possível. E para quem está começando gravar um CD ainda é importante. Tornar o nome conhecido, sair do anonimato também, seja através de filipetas, lambe-lambes, chamadas em rádio ou myspaces youtubes e outras novas mídias. As novas tecnologias tornam esse sonho cada vez mais viável, através das mídias sociais, do boca-a-boca viral da rede, da interatividade. Feito principalmente com estratégia, com imagem, com criatividade, com produção e com muito trabalho. É hora de somar as linguagens e tirar partido delas para quebrar barreira até pouco tempo só transponíveis por quem estava nas majors. Não é dentro do casulo de artista para poucos. O máximo que você vai conseguir assim, Beni Borja, é passar os seus dias tocando pra você mesmo.
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2 comentários:
DRICA, MANHANA EU LEIO SUA IMENSA POSTAGEM. AGORA VOU TOMAR UM CHOPS. TÁ DIFÍRCE, DIRCE!
De fato eu passo os meus dias tocando para mim mesmo. Eventualmente toco um pouco para os amigos, que eventualmente gostam do que eu faço e às vezes gravam minhas canções.
Apesar disso já tive o prazer de ver minhas canções cantadas em estádios , tocadas exaustivamente nas rádios e essas coisas todas que a indústria fonográfica proporciona aos compositores que ficam em casa tocando prá si mesmos.
Não estou cuspindo no prato que comi, muito pelo contrário. Você definitivamente não entendeu minha intenção. Que aliás nunca foi de publicar isso para o mundo.
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