A Lumix está por aqui, cheia de fotos de Paraty. Não fotografei chicobuarque e seus zóios de ardósia, não fotografei taleses@cia, casais des-separados, globais e que tais. Não, acho que FLIP não é praia de ex-bbb, ex-novela-das-sete, ex-rainhas-de-bateria. Nem o sabadão tava lá, nem o domingão. Estava o Ancelmo Goes, colunista que publicou essa foto - espero que dê para ler os créditos (foto de Fernanda Araujo). Ela é a imagem da FLIP deste ano: a exploração do turista. Já fui a Paraty várias vezes, sempre hospedado em pousadas, sempre comendo nos restaurantes locais, sempre navegando por suas ruas como quem está o tempo todo atravessando um rio de serra, perto das nascentes, pelo caminho das pedras. (Quando for ao Vale das Flores vou estar nos cascos!) Sempre passeando de traineiras. Sei o que é isso. Dessa vez, a viagem não foi tão agradável: vinte e cinco mil pessoas andando no Centro Histórico. Comendo de pipoca a caviar. Falando tupy-guarany ou chinês. E o cidadão de Paraty ganhando na loteria. A pousada Azul, por exemplo, cobra "normalmente" uma diária de R$80,00. O que ela chamou de "Pacote Flip", como todas - 4 diárias -, custou R$1.350,00 mais as "taxas". Sem recibo, of course. Em certo momento, recorri à Casa de Cultura para uma pausa após uma quase entorse no tornozelo, procurei o banheiro e... fui informado de que estava fechado! "Está faltando água na cidade". A Casa da Cultura não poderia cobrar, pega mal... No bar da esquina não estava faltando água nem coisa nenhuma, só honestidade: apresentaram uma conta com 21 chopes. Requisitamos as comandas e... Só comprovaram 9. Mas antes tentaram de tudo para nos convencer da exatidão de sua cobrança, que também tinha 3 cocas e 1 água mineral extra... Uma beleza! Ganhar dinheiro assim eu também quero! Ou melhor, não quero não.
Durante o ano inteiro, os artesãos constituem uma das atrações turísticas mais peculiares da cidade, com seus berenguendens, penduricalhos, quadros, pequenos instrumentos musicais de origem indígena, bijuterias e que tais. Foram expulsos do centro histórico da cidade pela prefeitura, que mandou a polícia militar apreender as mercadorias de quem fosse encontrado vendendo pelas ruas. Quem quisesse comprar tinha que entrar nas lojas e ser assaltado!
Mas o que mais me deixou pasmo foi a proibição da venda de livros independentes por seus autores em bancas improvisadas ou quaisquer outros artifícios que os expusessem ao distinto público. Geralmente são poetas os que vendem sua obra dessa forma. Só podiam vender "circulando" com os livros na mão, abordando os transeuntes, como pedintes. Poetas são geralmente os mais perseguidos pelo poder constituído, portanto, também tinham suas obras confiscadas pelos - vamos falar sério? SAMANGOS da prefeitura de Paraty, em conformidade com a direção da FLIP, que nada fez para tentar contornar a situação e deixar que a poesia circulasse livremente durante o evento. Omissão, para mim, é cumplicidade. Não vi nenhuma declaração de seus organizadores a respeito. É claro, não estavam ali produzindo a festa para qualquer penetra se aproveitar de seu público para vender seus poemas de beira de calçada. Estavam trazendo diversos autores do mundo inteiro para quê? O povão comprar livro de um real? Essa é uma característica do esquema em que se transformou o negócio da cultura aqui no Cunhadão, envolvendo governo, iniciativa privada e os criadores. O evento nasce no povo, é regulamentado pelo governo, que se torna dono dele, com seu poder de licenciar suas manifestações, e depois é repassado à iniciativa privada, que sob falso patrocínio - pois recebe de volta o que investiu com a prática da renúncia fiscal - torna-se o grande “mecenas”. Quem paga é sempre o povo, que criou e não pode mais participar de sua criação. O caso mais escandaloso desse processo são as escolas de samba do Rio de Janeiro. Se não era o caso da FLIP, está se tornando, quando proibe o próprio sentido de sua existência: a divulgação da cultura literária. Ou não?
Outros detalhes me chamaram a atenção naquele evento dito cultural: a quantidade de pessoas com crachá da FLIP perambulando pelo local. Muito mais do que trabalhando, que já era bastante gente. Eram crachás grandes, para não deixar dúvidas, pendurados no peito, escondendo os colares comprados nos camelódromos fora do perímetro charmoso da cidade. Não sei o que faziam, não consegui saber quantas atividades eram aquelas. A maioria formada por jovens de boa cepa: sumpaulo e adjacências, que também era a maioria do público flipense. Tinha muito carioca também, com seu amadorismo natural, correndo atrás do Chico Buarque, em vão.
Uma coisa boa, peloamordedeus! Sim, tudo isso foi compensado pela grande algazarra das crianças, que a cada ano ganham mais espaço na FLIP. Era muita criança, uma verdadeira Paraty-mirim, nome de praia alí pertim. Enfim, uma coisa muito bonita de se ver. Quanto à lumix, vamos ver que surpresa ainda me guarda.

3 comentários:
Salve, Geo! Já sei porque você faltou à aula! Ficou blogando, né? Eu também saí atrasada pra conseguir postar. Não dava pra não falar da FLIP, né? Legal, posts com pontos de vista diferentes. Eu também fico puta com a arrogância e com a falta de organização. Mas não consigo ficar puta com a festa... Ano que vem estarei lá de novo. Mas adorei o seu texto, como sempre!
Reprimir poetas alternativos que não participam do "evento oficial" numa feira litrária, é a cara do Zé Dirceu e seu Stalinismo Muleque.
Não sei quem é o prefeito de Paraty, nem de qual partido ele é, mas que isso é a cara do dirigismo cultural do PT isso é!
по Лулой
Патриа*
*"Por Lula e pela pátria" livre adaptação do lema stalinista
O texto é primoroso!
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