segunda-feira, 22 de junho de 2009

OS 4 MACACOS

Já temos vários artigos defendendo a tese de que a recepção de arquivos musicais baixados pela Internet não é a causa da derrocada das gravadoras. Não me lembro de registrar se nos Estadozunidos tem camelô vendendo CD pirata da Beioncê, ou da JiLô ou daqueles rapers tão bem vestidos pelas gravadoras. Os piratas daqui vão acabar exportando para lá, a pedido! Aí vem as filiais aqui do Cunhadão e jogam tudo no mesmo balaio: a pirataria, que ganha dinheiro com comercialização de cópia de obra alheia junto com o download de músicas na grande rede. As gravadoras preferem tentar impedir o avanço da tecnologia a se adaptar a ela. A cada dia que passa a divulgação de música, obras de arte, literatura e todas as demais formas de cultura pela Internet ganha importância e ocupa lugar de honra em qualquer projeto de marketing que acompanhe as mudanças do mercado. O próprio formato do CD, que enterrou o LP (conceitos à parte, por favor, ou vamos entrar numa discussão interminável!) sem a menor preocupação com quem achava isso absurdo, está morto como ator principal, mas ainda vai resistir um bom tempo, na falta de coisa melhor do que ele como objeto para conter músicas e ouvi-las. Nem o pendrive ou o tocador de mp3, pois devemos considerar que, apesar do grande aumento da população que usa computadores e acessa a internet, no Brasil o computador ainda é restrito a uma parcela pequena da população. Comer ainda é mais importante. No país aí de cima, que até pouco tempo era o mais rico do mundo e fazia o que queria em nome do (seu) mercado, essa mudança de produto está na raiz da briga e agora as gravadoras voltam-se contra o usuário doméstico. Sabem que não vão processar todo mundo, sabem que já existe uma geração que praticamente desconhece o CD como necessário para ouvir música, sabem que dessa geração em diante ninguém vai mais bater na sua porta para fazer sua carreira musical. Sabem que estão respirando artificialmente! Tanto sabem disso que estão desviando o foco de seu negócio para o empresariamento de shows para seus artistas. Não querem deixar de ganhar dinheiro em cima deles! Quanto à questão dos direitos dos autores, o melhor novo caminho é o Creative Commons, onde a palavra licenciamento é também aposentada, substituída pela permissibilidade - o artista é quem decide em que tipo de atividade será liberada a utilização de sua obra, o quanto quer ganhar com ela, por quanto tempo, sem a intermediação de uma enorme empresa que chup seu sangue e de seu público para continuar gerando lucros aos seus dirigentes e acionistas. O que a tecnologia trouxe para essa atividade econômica? A simplificação. Hoje sabemos que não é mais necessária uma torre de 50 andares para se tocar o negócio da música. Uma equipe de milhares de funcionários no mundo inteiro para fazer o que o próprio artista, com a ajuda do cunhado, pode fazer numa salinha alugada em Copacabana, no Centro, em Madureira. No Leblon já é caro demais! Então, o que temos aqui? As multinacionais que compraram as diversas gravadoras tupiniquins são proprietárias do maior acervo de música brasileira do país e do mundo. Grandes obras de compositores, autores, intérpretes e instrumentistas estão apodrecendo em seus esquifes de vinil nos porões das gravadoras, que não estão interessadas na Cultura Brasileira. Alguns blogs disponibilizam essa riqueza, não para ganhar dinheiro, para divulgá-la, para que essa cultura não seja extinta como o macaco prego. As gravadoras os perseguem, ameaçam, mas se conseguem fechar um blog aqui, abrem outro ali. Mas elas continuam nessa batalha perdida. Precisam gerar lucros para seus acionistas internacionais. Encarregam seus departamentos de marketing de utilizar todas as suas ferramentas, éticas ou não, para formar o gosto do mercado consumidor, como um iogurte qualquer. E conseguiram, dos anos 80 para cá. Mas deixaram de observar o próprio comportamento de seus contratados, que, aos poucos, foram abrasileirando a sua obra. Foram enquadrando-se na música brasileira, mesmo compondo roquenrol ou tango, blues ou fados, todos vão ficando mais brasileiros. Como a chamada MPB sempre fez. O universo musical dos departamentos de marketing veio se fechando cada vez mais em poucos gêneros musicais "rentáveis", como música pop (seja lá o que isso signifique), axé "music", sertanejo e pagode. Mas mesmo bem feitas, as canções enquadradas nessas embalagens não vão continuar sustentando esse circo. Os artistas brasileiros estão mudando também. Mesmo os que ainda estão renovando seus contratos com as major - SONY/BMG, UNIVERSAL, EMI E WARNER - já estão procurando novos locais de apresentação, nova forma de negociar seus shows, dedicando uma parte de sua produção ao Creative Commons. Só falta acabar também com a lei da ditadura que criou o ECAD - Escritório Central de Arrecadação de Direitos. Quem sabe o STF, tão zeloso em agradar aos donos de jornais, não utilize o mesmo principal argumento que usou contra os jornalistas e acabe com mais essa aberração. Mas essa será outra cantoria... Fiquemos com os quatro macacos, um para cada multinacional citada acima: o que não vê, o que não ouve, o que não fala e o que não sente. A ordem dos fatores não altera o arranjo.


Imagem baixada do blog http://sospontanegra.blogspot.com


2 comentários:

aminhapele disse...

Mais um belo texto,Gerson.
Muitos dos meus amigos daqui,músicos e escritores,gostariam de o ler.
A questão que abordas é global,não se remete ao cunhadão...
E os abutres andam a ficar desesperados!

Drica disse...

E as gravadoras continuam pagando o maior mico querendo criminalizar o usuário, o apreciador, o público... Esqueceram que o cliente tem sempre razão?