A Entrevista do Jô
Essa deve ser a terceira ou quarta vez que eu recebo esse vídeo do Jô Soares entrevistando um cidadão gago. Um político gago. Infelizmente é impossível não rolar de rir. Digo infelizmente porque, além de a gagueira ser uma deficiência físico-psicológica muito complicada, a maioria dos gagos não consegue ter o senso de humor do entrevistado. Posso dizer de cadeira porque eu era gago. Durante a maior parte da minha vida eu gaguejei bastante, num caso um tanto parecido com o que assistimos agora: como o cidadão da tela, eu não gaguejava o tempo inteiro, como vários que conheci. Mas era o suficiente para receber a gozação e o escárnio das outras crianças. Chegava a faltar aulas para não ter que ler alguma coisa "em público". Só de pensar nisso já fugia pra bem longe da escola. Lembro-me da cadeira de Francês no ginasial, que era pelo método audiovisual. Eu era excelente aluno porque a turma ficava no escuro, eu não me intimidava. Então gaguejava em português e falava muito bem em francês! Madame Tibeau e sua filha Catherine foram minhas artistas de cinema prediletas durante muito tempo.
Como o nosso herói da telinha, bebi água em casca de ovo, levei colheradas de pau na moleira, tentativas de sustos, enfim, toda a imensa variedade de táticas e técnicas da sabedoria popular para falar direito. Não adiantou. Frequentei uma clínica especializada em fazer os guris falarem normalmente suas besteiras, até fiz análise, lá pelos trinta e tantos anos, e não me lembro de ter gaguejado em nenhuma seção. Acabei me convencendo de que não era mais gago. Aí pararam de me chamar pelos apelidos pertinentes, menos um: Guegué. Esse ficou na língua de alguns nostálgicos. Mas não me importa ouvi-lo na alegria do botequim, na esquina, no vento da bicicleta. Levanto o braço num aceno carinhoso e sigo meu caminho. Guegué era outra pessoa!
Agora estou indo às forras! Passo horas no telefone, objeto - ou gadget como dizem os modernos - que eu sempre odiei. Uma amiga, conversando comigo ao telefone nos anos 70, ouvindo minha agonia gaguejante, resolveu me ajudar, completando as palavras ou frases nos momentos em que eu ficava empacado feito uma mula discursando. Minha resposta, seguida de uma batida do telefone no gancho que o inutilizou pelo resto da vida:
-Vai tomá nuku!
Ela não entendeu nada, ligou para um amigo comum e aí ficou perplexa ao saber que eu era gago - jamais tinha percebido. E a entrevista de emprego? Rapaz, era uma tortura. Todos os empregos que conseguia eram por indicação. O empregador tinha que ter uma boa dose de paciência. Mas depois, ele tinha sua recompensa: sempre fui bom trabalhador - tirando os atrasos no horário - e jamais pedia aumento. Ficava mudo, assoviava e mudava de assunto. Recorri ao concurso público, a salvação dos tímidos. Depois, já bancário estatal, quem disse que eu subia ao palco de uma assembléia para discursar aos trabalhadores revoltados... Preferia escrever um tratado de justificativas salariais do que subir naquele púlpito e dizer:
- Companheiros, seja o que deus quiser! Vamos votar logo isso aí que eu quero tomar um chope!
Sempre acreditei que a gagueira tinha um lado bom. A timidez evitava que eu levasse foras desnecessários. Recorri à música, sempre ela, para me comunicar com a parte que importava da humanidade: as mulheres. Graças às orquestras de baile, aos discos e fitas e ao violão, minha vida amorosa até que não foi tão ruim quanto se poderia esperar. Algumas moças eram compreensivas, mas a maioria não era tão boazinha. As mulheres são criaturas indiretas que exigem atitudes diretas dos rapazes. São capazes de crueldades inacreditáveis, não apenas com tímidos como eu - acontece até com os que sofrem com a imperfeição da beleza.
Não reclamo delas. Minha gagueira tornou-me rápido no gatilho do pensamento - quando uma palavra brigava com a minha língua, tinha que substituí-la rapidamente. Às vezes, mudando até toda a construção da frase. Sem embaralhar as palavras nem mudar o contexto. Não é fácil, mas a gente aprende e isso nos dá a impressão de que somos mais inteligentes do que os outros. Momentos de felicidade que duram até o próximo encontro consonantal. TR, PR, PL, enfim, palavras como três e seus múltiplos, primeiro, plural, chegavam a deixar meus entrevistadores perplexos. Viu como agora eu falo direitinho? Meu CPF começa com 33. O Brasil foi tricampeão em 70, tive que esperar o penta pra poder comemorar direito... Dos 29 aos 40 anos fiquei praticamente mudo. Comemorei quatro décadas de idade com um discurso!
Nas primeiras vezes em que vi a entrevista acima fiquei me sentindo um canalha rindo de um colega de infortúnio. Sabendo o que ele passou e ainda passa. Mas o seu senso de humor me tranqüilizou - ele parece o Gago Apaixonado do Noel Rosa, é muito engraçado e quase consegue nos convencer de que ser gago é maravilhoso. Mas não é não, podem estar certos. A vida é assim, tem momentos para tudo. Já dizia um poeta da música popular: o que dá pra rir dá pra chorar. Eu completo, também com a filosofia das ruas: feliz é aquele que consegue rir da própria gagueira.

2 comentários:
Depois de ler a tua bela prosa,eu é que fiquei gago,companheiro!
Gerson,
Você já teve a oportunidade de assistir a este curta-metragem sobre gagueira?
http://www.youtube.com/watch?v=Y6bzpvjvy3k
O que fazer em casos assim? Será que é sempre possível conseguir remissão espontânea como ocorreu no seu caso, ou há tipos de gagueira em que isto é impossível?
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