quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O POLITIQUÊS INCORRECTO

As opiniões do Fabio Carraro me levam a fazer um parentesis na discussão dos meios de comunicação, mas sem sair deles totalmente. Ele compara a subida ao poder de Evo Morales, Lula e Chávez às carreiras políticas de alguns líderes do nosso passado recente.

Isto merece ser examinado melhor.
Pol Pot, chefe do Partido Comunista Khmer - Em 1970, o general Lon Nol derruba Norodom Sihanouk, numa guerra civil. Em abril de 1975, Phnom Penh é tomada pelos comunistas, que tomam o poder e renomeiam o país como «Kampuchéa democrática». Tem início aí o genocídio cambodjano: uma grande parte da população é massacrada com as ordens de Pol Pot. Ele nunca teve votos em eleição alguma.
Mao Tsé-Tung organizou um movimento revolucionário, fundando, em 1931, um soviete que se defendeu dos ataques dos aliados, adotando táticas de guerrilha. Em 1945, foi confirmado oficialmente como chefe do partido, sendo nomeado presidente do Comitê Central. Ao fim da 2a.grande guerra, estourou, em 1946, uma guerra civil entre comunistas e nacionalistas que durou até 1949. Em 1 de Outubro desse ano foi proclamada em Pequim, a República Popular da China; em Dezembro foi ele proclamado presidente da república. Proclamado, não eleito.
Idi Amin Dada - Idi Amin assumiu o governo do Uganda quando era comandante-chefe das Forças Armadas, destituindo o antigo governo civil através de um golpe. Era defensor de Adolf Hitler e favorável à extinção do Estado de Israel. O seu governo terminou em 1979, quando as tropas da Tanzânia, que nunca reconheceram o seu governo, o destituíram sob o apoio dos ugandenses. Jamais foi eleito.
Mussolini - Em 1919, fundou os Fasci Italiani di Combatimento, organização que originaria, mais tarde, o Partido Fascista. Em 1922 organizou a famosa marcha sobre Roma, um golpe de propaganda. Usou as suas milícias, chamadas de camisas negras, para instigar o terror e combater abertamente os socialistas, conseguindo que os poderes investidos o nomeassem para formar governo. Foi nomeado Primeiro Ministro pelo rei Vítor Manuel III, alcançando poderes absolutos no governo do país. Nunca participou de eleições.
Hitler - O partido Nazi em 1923 era constituído por um pequeno número de extremistas de Munique. Mas Hitler, tinha dois talentos: o da oratória pública e o de inspirar lealdade pessoal. Com seus discursos inflamados, atacando os judeus, os socialistas e os liberais, os capitalistas e os comunistas, começou a atrair simpatizantes. O Putsch da Cervejaria foi uma malfadada tentativa de golpe de Adolf Hitler e seu Partido Nazista contra o governo da região alemã da Baviera, em 1923. Mas a tresloucada ação foi rapidamente controlada pela polícia bávara, sendo que Hitler e vários correligionários – entre eles Rudolf Hess – acabaram presos. O ponto de viragem em benefício de Hitler veio com a Grande Depressão que atingiu a Alemanha em 1930. O regime democrático estabelecido na Alemanha em 1919, a chamada República de Weimar, nunca tinha sido genuinamente aceita pelos conservadores e tinha a oposição aberta dos fascistas. Os sociais democratas e os partidos tradicionais de centro e direita eram incapazes de lidar com o choque da depressão e estavam envolvidos no sistema de Weimar. As eleições de Setembro de 1930 foram uma vitória para o partido Nazi, que de repente se levantou da obscuridade para ganhar mais de 18% dos votos e 107 lugares no "Reichstag" (parlamento alemão), tornando-se o segundo maior partido. Um detalhe interessante para a nossa discussão: sua subida foi ajudada pelo império de mídia controlado por Alfred Hugenberg, de direita. Hitler ganhou sobretudo votos entre a classe média alemã, que tinha sido atingida pela inflação dos anos 20 e o desemprego vindo da grande depressão. Ele foi feito Chanceler numa designação legal pelo presidente Hindenburg, o que foi uma ironia da história, uma vez que os partidos do centro tinham apoiado o presidente Hindenburg por ele ser a única alternativa viável a Hitler, não prevendo que seria Hindenburg que iria trazer o fim da República. Mas nem o próprio Hitler nem o seu partido obtiveram alguma vez uma maioria absoluta. Nas últimas eleições livres, os nazis obtiveram 33% dos votos, ganhando 196 lugares num total de 584. Mesmo nas eleições de Março de 1933, que tiveram lugar após o terror e violência terem varrido o Estado, os nazis obtiveram 44% dos votos. No fim, os votos adicionais necessários à lei de aprovação do governo - que deu a Hitler a autoridade ditatorial - foram assegurados pelos nazistas pela expulsão de deputados comunistas e da intimidação de ministros dos partidos do centro. Numa série de decretos que se seguiram pouco depois, outros partidos foram suprimidos e toda a oposição foi proibida. Hitler tinha adquirido o controle autoritário do país e enterrou definitivamente os últimos vestígios de democracia.
Populações desiludidas, com baixo nível educacional, legitimaram o que? Sinto muito, mas essas figuras citadas chegaram ao poder com o apoio exatamente de várias oligarquias interessadas em perpetuar o que sempre fizeram: manter-se no poder econômico. Comparar as suas carreiras é um êrro grosseiro. Quanto ao "cocalero" Evo, como frisou Renato, "Evo Morales, que se elegeu em 2005 com 53% dos votos, desta vez, obteve 63% de aprovação", está recebendo os ataques previsíveis dos antigos donos do poder, inconformados com a ascenção de um índio puro ao poder, democráticamente. Assim como os governadores. Eu estive na Bolívia no anos 70 do século passado, e pelo que tenho percebido, as coisas não melhoraram muito em mais de 40 anos de governo "branco". E o argumento de que "é uma falácia vil e hipócrita exigir que o povo boliviano tenha – neste momento da história - discernimento acerca dos perigos embutidos na concentração de poder nas mãos deste pseudo 'Pancho Villa", é exatamente o que os ditadores citados anteriormente sempre usaram: este povo é incapaz de escolher seus governantes. Isto sim é a falácia de sempre.

JC Mello

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